“amigos não ‘são para essas coisas’, não. isso é um clichê detestável, significando quase sempre que amigo é um saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar dejetos, detritos imundos e dar a descarga. amigos são pra dividir o bom e o mau, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles - amigos devem ser solidários. um dos meus maiores amigos, que vive em paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 tem sempre a preocupação de ser útil aos amigos. quase não fala, não envia flores, não escreve cartas - mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. amigos são também para escrever cartas um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tombem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90.” (caio f., “o essencial da década de 90”, p. 246)
romantismo não serve de muita coisa… não é dele que você precisa para dormir, para se alimentar, para fazer o bem pelo próximo, para motivar-se, para fazer a diferença. há várias formas de amor, que, combinadas, ou mesmo dissociadas, são capazes de mover montanhas - depende da intensidade que você atribui a elas.
hoje, tudo o que eu menos preciso é de romantismo. sem cobranças implícitas, sem chantagens, sem sacrifícios, sem murros em ponta de faca, sem querer mudar o outro, sem querer que me mudem, sem frustrações. só hoje - ou pelo menos hoje - eu quereria a tranquilidade dos que nunca amaram ninguém.
(ronaldo correia de brito, na quarta capa de ‘retratos imorais’)
via: coisas da gaveta.
de vez em quando vem essa sensação de ser um acessório, um coadjuvante, uma participação não especial na vida dos outros. uma escada, uma janela, uma planta, um brinquedo inanimado repousando na gaveta, esperando para ser lembrado em um dia qualquer. e esse dia sempre vem - quando todas as ilusões já escoaram timidamente pelas horas.
ser pega e atirada longe sem maiores explicações, sem nenhuma razão aparente: te-quero-quando-estou-triste. ah. seres humanos adultos e mimados - melhores amigos quando precisam de apoio, bons desconhecidos quando o papel é inverso. gente que não sabe se doar, talvez. ou apenas não sabe ouvir, nem tenta; mas bater o pé é uma lição que aprenderam muito bem. olho petrificada e me sinto cada vez mais longe, cada vez mais de-dentro, alheia. uma desistência muda.
Asked by ameninaquemaltrata-deactivated2 ameninaquemaltrata-deactivated2
olá :) grazie.
a magia é aleatória, e talvez a essência dela seja só isso. mágico é tudo aquilo que contraria as probabilidades?
ele poderia escolher qualquer uma, uma mais próxima do que ele chama de Arte. uma que entendesse a música que ele faz e suas denominações complexas, uma que cantasse, dançasse, pintasse quadros ou fizesse filmes, uma atriz, alguma mulher expressamente artística, alternativa, visionária, que arrastasse multidões assim como ele queria fazer em cima do palco, com seu instrumento na mão. uma um pouco mais loura, um pouco mais louca, mais magra, melhor anfitriã, que bebesse e fumasse com ele, que ficasse em claro com ele e gostasse de Coltrane e Miles, que desse uma risada gostosa para encerrar a conversa, sem nunca se exasperar, sem jamais elevar a voz, imperturbável (ou quase). uma que morasse na mesma cidade, fizesse a mesma faculdade. mas não.
em que capricho o óbvio se perdeu? ele, em um mundo onde as palavras pouco valor têm, tocando melodias que jamais vou compreender; eu, com meus contos que ele lê e opina e parabeniza quando saem publicados, mas também não entende, não pressente o que significam, para sempre letrinhas combinadas que prometem sem cumprir, essa minha vida de ficção. eu, que prefiro ser descrente, bruta e lógica, eu, que vim com dez peças de roupa na mala e abri mão da minha herança, eu, que durante anos lidei com crianças destroçadas pela pobreza, pela doença, pelo tráfico, pelos pais ausentes, eu, com minha centena de miseráveis defeitos, a filha brilhante que se rebelou contra a falta de afeto e preferiu desprezar um futuro promissor. eu, capaz de decifrar qualquer poema, monografia ou bula de remédio, mas não uma partitura, não as partituras dele, a linguagem em que ele aprendeu a se expressar. poderia ter sido diferente, mais fácil, mais simples. poderia - e só quem passou anos estudando tempos verbais em uma sala de aula sabe o que esse “ia” significa. não foi.
existiram chances, dúvidas, e eu sumi, o deixei livre por muitos meses; poderia ter sido outra, poderiam ter sido várias. um dia, há dois anos, ele voltou. há dois anos completos estamos juntos.
parece que o destino não gosta do que é fácil, não.
Asked by bullet-hole bullet-hole
muito feliz ler isso, mesmão. também quero ler seus textos sempre, tô acompanhando seu blog :)